História

Maria Isabel de Bragança – Wikimedia Commons

A DESGRAÇA DE MARIA ISABEL DE BRAGANÇA
Dona Maria Isabel de Bragança foi uma figura singular da história da aristocracia mundial. Ligada às casas de Bragança e Bourbon, provenientes, respectivamente, da herança paterna, com Dom João VI, e materna, com Dona Carlota Joaquina. Famosa por ser irmã de Dom Pedro I do Brasil, ela não teve grande participação na política brasileira, tendo relevância na corte espanhola.

Nascida no palácio imperial português em Queluz, ela fazia parte de um núcleo aristocrático importante, mas em decadência. Era sobrinha de Fernando VII e neta de Carlos IV por parte de mãe, mas era essencialmente da Casa de Bragança, por sua ascendência paterna, ligada ao avô Pedro III.

Aos 10 anos passou por sua primeira conturbação política quando a França invadiu a Península Ibérica. Diante do episódio, o rei Dom João articuladamente conseguiu a fuga da Família Real para o Brasil. Atravessou o Atlântico com a família e chegou ao Rio de Janeiro pouco mais de um mês antes de seu aniversário, passando a viver com a corte no Palácio de São Cristóvão.

Maria Isabel / Crédito: Wikimedia Commons

Fernando era tio de Maria Isabel, e irmão de sua mãe Carlota Joaquina. Seu matrimônio foi um importante reforço às relações diplomáticas entre as coroas ibéricas, num momento em que se reestabeleciam e o relacionamento anterior, entre Carlota e João, era pouco amistoso.

Maria Isabel era uma entusiasta da arte e erudit. Se encaixava perfeitamente entre os membros mais liberais da corte espanhola. Envolveu-se com relevantes grupos de apreciadores de pinturas e poesias, sempre relatando um sonho de criar um grande acervo com as obras pertencentes aos reis espanhóis. Porém, o casamento durou pouco tempo diante das tragédias que abalaram Maria.

Embora tenha concebido duas filhas, Maria Isabel não conseguiu criar herdeiros ou herdeiras para o trono espanhol. Em menos de um ano, ela engravidou da primogênita, que nasceu em 1817, como Maria Luísa Isabel. Porém, no ano seguinte, a garota morreu prematuramente, gerando grande tristeza na irmã de Dom Pedro I.

Logo depois do episódio, Maria Isabel engravidou novamente, numa gestação repleta de complicações. Seu parto foi extremamente difícil, e os médicos da corte optaram pela cesariana, que foi  violenta e repleta de falhas. Foi revelado que o bebê, que receberia o mesmo nome da irmã morta, estava na posição de culatra, ou seja, com a disposição do corpo inversa ao esperado naturalmente, com as pernas viradas para a região baixa do útero, o que resultaria em asfixia com o parto normal.

Logo no início do procedimento, descobriram que a criança falecera antes do parto. Abalada e enfraquecida pelos procedimentos iniciais da cirurgia, Maria teve uma parada respiratória e ficou temporariamente sem reação e, por isso, concluíram que a rainha havia morrido na cirurgia. Os responsáveis pelo parto optaram por uma ação invasiva e violenta para finalização rápida do procedimento, retirando o feto morto para que ambos fossem sepultados.

Fernando VII da Espanha / Crédito: Wikimedia Commons

Isso significou uma atroz retaliação da região do abdômen da rainha que, na verdade, não estava morta. Quando os médicos começaram os cortes profundos e pouco preocupados, para extraírem a criança, Maria Isabel começou a gritar de dor, se contorcendo. Seu ventre sangrava e ela caiu da cama, com uma hemorragia que se espalhava pelo chão do quarto.

As retaliações cirúrgicas feitas pelos médicos levaram Maria Isabel à morte, num acidente procedimental invasivo e extremamente doloroso. O desastre da cesariana chocou a corte espanhola, que perdeu dois membros (a rainha e sua filha) de uma vez. Diante do primeiro diagnostico de morte, que levou à verdadeira logo depois, Maria Isabel é conhecida na memória dos espanhóis como “a rainha que morreu duas vezes”.

Bem apreciada, Maria foi sepultada no Mosteiro do Escorial, em San Lorenzo, localidade nos arredores da capital Madrid. Seu sonho de ter um acervo organizado com as obras de artes dos monarcas da Espanha se realizou um ano depois de sua morte, quando o prédio — ordenado ainda no século anterior pelo rei Carlos III — foi inaugurado por Fernando VII como Museu do Prado.