Arquivo para junho 29th, 2020

História

Princesa Isabel – Biblioteca Nacional

AS ANGÚSTIAS DA PRINCESA ISABEL
Dona Isabel foi uma figura única da monarquia brasileira, e possivelmente a herdeira do trono numa eventual morte de Dom Pedro II ainda no poder — o que não aconteceu, diante da monarquia. Segundo a historiadora Regina Echeverria, em entrevista à BBC, a filha do imperador era uma “mulher bem humorada”, além de “determinada e apaixonada pelo marido, com personalidade forte […], mandona, leonina”. Porém, isso não impediu que sua vida fosse marcada por angústias e infelicidades, principalmente por acabar num exílio.

Baixinha e de olhos azuis, sua face era marcada pela ausência de sobrancelhas. Próxima à irmã, Leopoldina, teve seu casamento arranjado em meio a negociações mútuas que a envolveram. Dom Pedro mandara emissários à Europa no intuito de encontrar maridos para ambas ao mesmo tempo. Inicialmente, foi cogitado um matrimônio com o Príncipe de Joinville, sem sucesso.

Então, foi acordado que Isabel se casasse com Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota, e sua irmã se casaria com Dom Gastão, o conde D’Eu. Porém, ao conhecerem os pretendentes, perceberam que os afetos apontavam uma inversão: Isabel preferia o aristocrata francês. Porém, Gastão chegou a descrever ambas as moças como “feias”, achando Isabel menos bonita que Leopoldina. Acabaram casando em 1864, no Rio de Janeiro.

Família de Isabel / Crédito: Wikimedia Commons

Apesar de a simpatia do pai em levá-la a compromissos oficiais, a vida de Isabel foi marcada pelo ambiente doméstico. Ela tinha pouco espaço, mas mesmo assim desenvolveu um hábito fugaz pela leitura.

A visita à Europa do casal, em 1865, ocorreu puramente como civil: o Brasil, por insistir no apoio ao tráfico negreiro, cortara relações com a Inglaterra. Além disso, a família de Gastão havia sido expulsa da França. Logo depois do retorno ao Rio de Janeiro, Isabel passou por uma fase solitária: o Imperador convocara Gastão a participar da Guerra do Paraguai.

Com o fim da guerra, em 1870, eles voltaram a viajar à Europa, onde mais um episódio abalou sua vida íntima. Em Viena, visitando a irmã que deixara o Brasil, ela teve de lidar com a súbita morte de Leopoldina, que adoecera em 1871. O trágico acontecimento entristeceu Isabel, que se tornou a única filha viva de Dom Pedro II.

Triste e com um sentimento de solidão, ela e o marido voltaram ao Brasil. Três anos depois, ela ficaria grávida pela primeira vez, mas numa situação que levara a mais um trauma. Seu primeiro trabalho de parto na vida durou cerca de 50 horas, causando imensa dor, e resultando na morte do bebê.

A princesa Isabel do Brasil – Wikimedia Commons

A menina, que faleceu antes do nascimento, foi mais uma da linhagem dos Bragança que teve o duro destino antes de sair da infância. O parto fora muito duro e doloroso, sem anestesias, como relata Cleomenes Simões na obra Os partos da Princesa Isabel. O fato foi mais um abalo psicológico na aristocrata, que também vivia com um peso criado pela herança do poder, que era não só incomum na época — no Brasil, não havia direito ao trono a mulheres — como também marcado por contradições.

No ano seguinte, ela seria agraciada com o primeiro filho, Pedro de Alcântara. Depois, ainda teria mais dois: Luís e Antônio Gastão, mas o ocorrido da natimorta e o primogênito deficiente trouxeram grande amargura à princesa.

Outro momento de grande pesar na vida de Isabel se deu a partir do final dos anos 1880. Como herdeira, ela assumia o comando do governo nas diversas visagens (muitas delas por puro entretenimento) do pai. Numa dessas situações, ocorreu a famosa assinatura da Lei Áurea. Porém, com a crise da monarquia, Dom Pedro II sofreu um golpe em 1889, partindo para o exílio na Europa.

Passando a viver na França, Isabel sofreu muito com o distanciamento da terra natal. Assim como o pai, ela adorava o Brasil e, por isso, o exílio teve grande peso no seu psicológico, deprimindo a ex-princesa. Ela vivia relatando a vontade de retornar, mas sempre com um ponto de vista puramente civil, não política (ela deixou bem claro que não queria mais se envolver em movimentos).

Gravura da Família Imperial no exílio / Crédito: Wikimedia Commons

Em constante comunicação com os monarquistas do Brasil, Isabel se recusou a participar de qualquer iniciativa der retomada do regime na recente República Brasileira. Magoada e deprimida, ela queria saber como estava a situação dos brasileiros constantemente, mas muitas vezes barravam a verdade humilhante e entretecedora do cenário político de lá. Mais um abalo ocorreu na década de 1910, pois dois de seus filhos (Antônio e Luís) morreram na frente britânica da Primeira Guerra. Morreu em 1921, amargurada.

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História

A princesa Isabel do Brasil – Wikimedia Commons

A RARA CARTA DA PRINCESA ISABEL
No dia 13 de maio de 1888, a escravidão no Brasil foi abolida quando a princesa Isabel sancionou a Lei Áurea. O ato foi visto com bons olhos, afinal, a promulgação levou o Brasil ao delírio, com grandes festas e comemorações.

No entanto, muitos desconhecem os bastidores desse momento, que fora revelado com uma carta escrita pela própria princesa Isabel, em 11 de agosto de 1889, endereçada a Visconde de Santa Victoria, o Visconde de Mauá.

Porém, antes de mais nada, apesar da lei Áurea ser considerada o símbolo da abolição, vale ressaltar que o fim da escravatura no Brasil aconteceu de maneira gradual a partir da segunda metade do século 19.

Esse processo começou em 4 de setembro de 1850, quando foi promulgada a Lei Euzebio de Queiroz, que, além de vetar a entrada de escravos africanos no Brasil, também criminalizava quem a infringisse.

Logo depois veio a Lei do Ventre Livre, que declarava, a partir daquela data, livres todos os filhos de mulher escrava nascidos no Brasil. E por último, em 28 de setembro de 1885, a Lei dos Sexagenários, que garantiu a liberdade dos escravos com pelo menos 60 anos de idade.

Assim, nesse contexto gradual, resultante nas pressões internas e externas, além da insurreição dos escravos, especialmente aqueles dos chamados “quilombolas de resistência” (ou quilomborompimento), que a Lei Áurea foi instaurada.

Apesar disso, o documento escrito pela princesa Isabel mostra que ela apenas não queria dar fim ao regime escravista, como também indenizar os escravos libertos e assentá-los, para que assim pudessem ser capazes de produzir seu próprio sustento.

Em um dos trechos, disponíveis em um artigo publicado pela Fundação Palmares, Isabel escreve: “Fui informada por papai [dom Pedro II] que me colocou a par da intenção e do envio dos fundos de seu Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do ano passado, e o sigilo que o Senhor pediu ao presidente do gabinete para não provocar maior reação violenta dos escravocratas”.

Em outra parte, ela deixa mais clara sua intenção: “Com os fundos doados pelo Senhor teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos, realizando uma grande e verdadeira reforma agrária a quem é de direito”.

Assim, Isabel aparenta ter plena consciência dos riscos que a monarquia corria casso esse plano chegasse nos ouvidos dos escravocratas e dos militares. “Deus nos proteja dos escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio, pois seria o fim do atual governo e mesmo do Império e da Casa de Bragança no Brasil”.

Deste modo, pelos motivos já citados, não podemos conferir a Isabel o título de única responsável pelo fim da escravidão, assim com também não é plausível lhe abster de fazer parte disso. Além disso, o documento também revela que a princesa mantinha boas relações com outros abolicionistas, como Joaquim Nabuco e André Rebouças, que por sua vez, possuíam relações amistosas com o Quilombo do Leblon, localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro.

“Nosso amigo Nabuco, além dos Srs. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderem dar auxílio a partir do dia 20 de novembro quando as Câmaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o nosso Brasil!”.

Isabel também se mostra bastante otimista com que o fim da escravidão pode ocasionar no Brasil. “Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar e realizar mais um pouco”.

O documento também mostra a monarca com um pensamento diferente. “Pois as mudanças que tenho em mente, como o senhor já sabe, vão além da liberação dos cativos e que seus sustentos sejam realizados de forma honrosa”.

“Quero agora me dedicar a libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro doméstico, e isto será possível através do Sufrágio Feminino! Se a mulher pode reinar também pode votar!”, conclui antes de se despedir. “Agradeço vossa ajuda de todo meu coração e que Deus o abençoe!”.

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História

Dona Leopoldina e Dom Pedro I – Wikimedia Commons

A DESESPERADORA CARTA DE LEOPOLDINA A DOM PEDRO I
Dona Leopoldina tinha uma vasta inteligência e era uma mulher estrategista. Embora ela tenha ficado nos bastidores do desligamento de Portugal com o Brasil, o seu papel foi, na verdade, de protagonista. Sem ela, Dom Pedro I talvez tivesse pensado duas vezes antes de gritar “Independência ou morte!”.

Como princesa real, ela já calculava à frente. Isso porque a atuação política de vossa alteza antecede até mesmo sua fase de imperatriz consorte. O seu maior talento talvez seja a influência — em especial sob o seu marido. Por isso, o Dia do Fico (9 de janeiro de 1822), foi tanto uma vitória dos brasileiros quanto da princesa.

Substituindo o traidor
Pedro era um infiel que traía Leopoldina com inúmeras amantes, sendo a mais conhecida delas Domitila de Castro, a famosa Marquesa de Santos. Apesar da relação ter sido um fiasco, provando que possuía intelecto e objetivo, a princesa assumiu o papel de regente no lugar do marido adúltero, que assim permitiu.

Como Príncipe Regente, ele havia viajado para São Paulo, em agosto de 1822, para esfriar os ânimos antes da independência. O calor vinha dos temores de que uma guerra civil podia separar a Província de São Paulo do resto do Brasil.

Dona Leopoldina / Crédito: Wikimedia Commons

Enquanto isso, por causa do seu estado de gravidez, Leopoldina não pôde acompanhar o esposo até o território dos paulistas e permaneceu no Rio de Janeiro. Foi aí que no dia 13 daquele mês de agosto, Dom Pedro nomeou a mulher como chefe do Conselho de Estado e Princesa Regente Interina do Brasil.

Neste ínterim, a agitação em Portugal era imensa e os brasileiros estavam cientes que os portugueses podiam chamar D. Pedro I de volta, rebaixando novamente o Brasil ao status de colônia. Dona Leopoldina não podia esperar mais pelo marido. Tomou uma rápida decisão.

Com os conselhos de José Bonifácio de Andrada e Silva, no dia 2 de setembro de 1822, ainda como chefe interina, Leopoldina presidiu uma reunião do Conselho de Ministros e assinou o decreto da Independência, declarando o Brasil separado de Portugal. No entanto, ainda era necessário que o imperador sancionasse a resolução da esposa.

Leopoldina como Princesa Real-Regente do Reino do Brasil, presidindo a reunião do Conselho de Ministros, em 2 de setembro de 1822 / Crédito: Wikimedia Commons

A carta atormentada
Após assinar o decreto, no mesmo dia, a regente enviou uma carta ao marido, pedindo que ele proclamasse a Independência do Brasil. Ela queria que o príncipe visse seu posicionamento antes que o despacho oficial chegasse até São Paulo. Então, Leopoldina deu um jeito de atrasar o correio e escreveu a correspondência.

O documento original, porém, não mais existe. No entanto, seu texto foi preservado em um folheto raro de 1826, onde foi publicado pela primeira vez. O papel chegou até D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, mesmo dia em que ele proclamou o Brasil livre de Portugal.

Na carta, Leopoldina escreve:  “Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até oficiais das tropas são revolucionários. As Cortes Portuguesas ordenam vossa partida imediata, ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho de Estado aconselha-vos para ficar”.

Além disso, a regente interina alerta o esposo, ao dizer que, se fossem à Lisboa, o destino também não seria o melhor de todos. O rei e a rainha de Portugal estavam submetidos às mãos das cortes liberais. E Leopoldina argumentava também que o Brasil queria D. Pedro I como monarca. Portanto, ele deveria anunciar a emancipação de uma vez por todas.

A independência, conforme foi descrito pela princesa, era já inevitável. “Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele fará a sua separação”, registrou. Nesse fogaréu, D. Pedro I cedeu. Às 16h30 do fatídico dia 7 de setembro de 1822 — mesmo que com dor de barriga — nas margens do Rio Ipiranga, ele declarou a independência do Brasil. Vitória dos brasileiros e, em parte, de Leopoldina.

Retrato de Dona Leopoldina /Crédito: Wikimedia Commons

Veja abaixo o texto da carta de Dona Leopoldina ao marido na íntegra:

“Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até oficiais das tropas são revolucionários. As Cortes Portuguesas ordenam vossa partida imediata, ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho de Estado aconselha-vos para ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa. Sabemos bem o que tem sofrido nossos pais. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das Cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito. Chamberlain vos contará tudo o que sucede em Lisboa. O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele fará a sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece. Ainda é tempo de ouvirdes o conselho de um sábio que conheceu todas as cortes da Europa, que, além de vosso ministro fiel, é o maior de vossos amigos. Ouvi o conselho de vosso ministro, se não quiserdes ouvir o de vossa amiga. Pedro, o momento é o mais importante de vossa vida. Já dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois. Tereis o apoio do Brasil inteiro e, contra a vontade do povo brasileiro, os soldados portugueses que aqui estão nada podem fazer. Leopoldina”.

MEU CERTIFICADO DA CASA IMPERIAL DO BRASIL