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História

Retrato de Dom Afonso – Wikimedia Commons

O FILHO DE DOM PEDRO II QUE MORREU REPENTINAMENTE 
A perda prematura do menino que viria a ser o próximo herdeiro do trono mudou para sempre a vida do imperador.

O primogênito
Afonso Pedro de Alcântara Cristiano Leopoldo Felipe Eugênio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, ou, simplesmente Dom Afonso, nasceu em 23 de fevereiro de 1845, no estado brasileiro do Rio de Janeiro. O menino foi o primogênito de seus pais, o imperador Dom Pedro II e Teresa Cristina, portanto, seria o futuro herdeiro do trono do Brasil.

A partir do momento em que veio ao mundo, o pequeno Afonso já recebeu a titulação da nobreza para ser chamado de dom, além de receber o importante título de Príncipe Imperial do Brasil. A criança nasceu saudável e a ocasião contou com um evento formal com a presença da corte real. Logo após, seguindo a tradição, o imperador apresentou seu filho para a multidão reunida na frente do palácio.

Mudanças positivas
“Ninguém está mais feliz do que eu com o nascimento do príncipe” essas foram as palavras emocionadas de Dom Pedro II após a chegada de seu herdeiro. O nascimento de Dom Afonso foi extremamente positivo para o imperador.

Retrato de Afonso Pedro de Alcântara, que morreu antes de Pedro Afonso /Crédito; Wikimedia Commons

Pedro II — na época com 19 anos — era descrito como um homem tímido e inseguro, com a chegada do Príncipe Imperial do Brasil, o imperador se tornou mais maduro, obstinado e seguro de suas decisões.

Além disso, a vinda de Afonso também ajudou para que seus pais se aproximassem e pudessem criar uma relação mais estreita, algo que inicialmente foi difícil para Pedro e Tereza Cristina — já que o casamento tratava-se de um acordo político. Com o novo filho, a união passou a melhorar.

Semelhança com o pai
Algo perceptível na figura do pequeno Dom Afonso era sua semelhança física com a de Dom Pedro II, as fontes históricas evidenciam principalmente os cabelos, olhos e formato do rosto. Não demorou muito para que o menino passasse a ser o centro das atenções de toda sua família, mas, principalmente para seu pai.

Morte prematura
Afonso viveu sua curta vida no conhecido Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, era lá que o garotinho estava no fatídico dia 11 de junho de 1847. Na ocasião, Afonsinho — como era chamado —, brincava na biblioteca de sua casa, quando de repente foi acometido por uma série de convulsões.

Palácio de São Cristóvão, onde Afonso viveu / Crédito: Wikimedia Commons

A criança não resistiu e faleceu quando tinha somente dois anos, três meses e dezenove dias de idade. Em decorrência da circunstância de sua morte, foi revelado que o menino sofria de epilepsia.

Danos irreparáveis
A morte súbita do pequeno Afonso foi extremamente dolorida para seus pais, em especial Dom Pedro II — que nunca se recuperou totalmente. Na ocasião, Dona Teresa Cristina estava em sua terceira gravidez.

Devido à emoção, dois dias depois a imperatriz entrou em parto prematuro para o nascimento de sua filha Leopoldina. Um grande funeral foi feito como homenagem para Dom Afonso — que foi enterrado no mausoléu da família, no Convento de Santo Antônio.

Mais tarde, em 1850, o outro filho do casal,  Pedro Afonso, também faleceu de maneira inesperada, após uma febre quando ainda era somente um bebê de um ano de idade. Para o imperador, as tristes perdas seguidas de seus filhos homens representavam o fim da monarquia no Brasil.

Apesar de amar suas filhas, o imperador acreditava que era necessário a presença de um homem para comandar o trono. Por isso, a Princesa Isabel e sua irmã Leopoldina eram constantemente excluídas das decisões do império e nunca foram devidamente preparadas para assumirem tal posição. Alguns anos depois, em 15 de novembro de 1889, o palpite de Dom Pedro II foi concluído, quando a república no Brasil foi proclamada.

MEU CERTIFICADO DA CASA IMPERIAL DO BRASIL

História

Lampião, o Rei do Cangaço – Domínio Público

OS MOMENTOS FINAIS DO BRUTAL LAMPIÃO
Após ser morto, os restos de Lampião e seu bando passaram por uma longa e controversa peregrinação — o grupo só teve um descanso final após décadas de exibição.

O dia 28 de julho de 1938 ficou marcado para sempre não só na cultura nordestina brasileira, como também para a história de todo o país. Afinal, logo nas primeiras horas daquele dia, a Volante realizou uma mega emboscada que colocaria fim a vida de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião; Maria Bonita e outros 33 membros do cangaço.

Na versão mais difundida do acontecido, conta-se que, em meio a Grota de Angico, em Sergipe, a Volante chegou de maneira tão sorrateira que nem mesmo os cães perceberam sua presença. Assim, quando o bando de Lampião despertou, por volta das 5 da manhã, para rezar o ofício e se prepararem para o café, foram surpreendidos pelo ataque.

Encontro do fotógrafo Benjamin Abrahão Botto com Lampião e seu bando / Crédito: Wikimedia Commons

Acredita-se que o disparo mortal que atingiu o rei do Cangaço tenha partido do guarda-costas de Francisco Ferreira, o oficial Antônio Honorato da Silva, embora muitos historiadores questionem essa versão, como o jornalista e historiador Frederico Pernambuco de Mello, que diz em seu livro ‘Apagando o Lampião – Vida e morte do Rei do Cangaço’ que o assassino não foi Honorato, mas sim Sebastião Vieira Sandes.

“Sandes foi coiteiro [pessoas que ajudavam os cangaceiros, dando-lhes abrigo, comida e informações] de Lampião na região de Alagoas e companheiro de costura dele. Lampião era um exímio costureiro de couro, de pano, bordava”, explica o historiador, que diz que os dois chegaram até mesmo a serem amigos.

O historiador alega que a descoberta ocorreu em meados de 2003, quando perto do seu leito de morte, Sandes lhe fez uma confissão. “Fiquei até emocionado. Fazia mais de 20 anos que estava atrás dele. Minha mulher achou, na ocasião, que era uma emboscada. Ele me deu um relato precioso, que gravei durante quatro dias. Morreu um mês depois”.

Segundo o depoimento, Lampião morreu com um tiro só de fuzil, disparado a oito metros dele, porque o atirador não estava atuando no combate, mas observando à distância. “Lampião foi surpreendido, pois esperava ser atacado por terra e não pelo rio, como aconteceu. Sandes me disse que o silêncio era de uma catedral, porque era começo da manhã. Havia chovido e até os animais estavam recolhidos.

A maneira como atirou, de cima para baixo, ao contrário do que afirmava Honorato, foi comprovada pela perícia feita recentemente pelo perito criminal federal Eduardo Makoto Sato, do Instituto Nacional de Criminalística. O punhal de Lampião, que foi atingido, nunca havia sido analisado”.

A operação que terminou com a morte de Lampião
O ataque durou cerca de 20 minutos, deixando o líder e Maria Bonita gravemente feridos. Ainda assim, a mulher rastejou até o companheiro e pediu a autoridade que ele fosse poupado, mas a tentativa foi inútil.

O extermínio dos cangaceiros foi motivo de muita euforia dos Volantes, que ainda aprenderam os bens dele, além de decapitar e mutilar os corpos de todos do bando — Maria Bonita foi degolada ainda quando dava seus últimos suspiros. O mesmo ocorreu com Quinta-feira, Mergulhão, Luís Pedro, Elétrico, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete e Marcela. Sendo que os dois primeiros também tiveram suas cabeças cortadas quando ainda estavam vivos.

Após o ataque, a bizarra exposição das cabeças /Wikimedia Commons

O ódio dos policias pelo bando era tamanho que mesmo depois de morto, um deles golpeou a cabeça de Lampião com uma coronhada de fuzil, deformando o crânio do cangaceiro. Esse ato serviu para difundir a lenda de que o cangaceiro não havia sido morto e acabara fugindo com vida do conflito.

As cabeças dos membros do bando foram guardadas em lata de querosene, como se fossem troféus da vitória recente do grupo de Volantes. Já o que sobrou dos corpos dos cangaceiros foi deixado a céu aberto, o que atraiu inúmeros urubus. Posteriormente, para evitar a disseminação de doenças, foi jogado creolina sobre os corpos, o que acabou infectando e matando algumas aves. A morte delas ajudou a fomentar a crença de que o bando havia sido envenenado antes do ataque.

O trajeto dos restos de Lampião e seu bando
Em sua peregrinação da vitória, o coronel João Bezerra atraia multidões ao exibir as cabeças do grupo — que neste momento já estavam em estado de decomposição. Os “troféus” estiveram, em um primeiro momento, em Piranhas, onde foram organizados cuidadosamente na escadaria da prefeitura e fotografados junto a outros apetrechos dos cangaceiros, e depois passaram por Maceió e pelo sudeste do Brasil.

Já no IML de Aracajú, as cabeças degoladas foram analisadas pelo Dr. Carlos Menezes, que as mediu, pesou e examinou, não constando nenhum sinal de degenerescência física ou quaisquer outras anomalias, tendo sido classificadas como normais.

Do sudeste do Brasil, os crânios — já em péssimo estado de conservação — foram levados para Salvador, onde permaneceram por seis ano com membros da Faculdade de Odontologia da UFBA, que as examinaram novamente em busca de alguma patologia, o que não foi encontrado.

Bando de Virgínio Fortunato da Silva em 1936 / Crédito: Wikimedia Commons

Mais tarde, a cabeça de todos passou por um processo de mumificação e foram expostas no Museu Nina Rodrigues, na Bahia, por mais de três décadas. A peregrinação destes “troféus” só acabou depois do economista Sílvio Bulhões, filho de Corisco e Dadá, lutar para dar um sepultamento digno aos restos do cangaceiro. Segundo o próprio Bulhões, dez dias após o enterro, a sepultura de seu pai foi violada e os restos foram exumados e colocados em exposição no Museu.

O descanso final dos cangaceiros só ocorreu graças a um Projeto de lei instaurado em maio de 1965, que após a pressão popular e do Clero, garantiu os cangaceiros tivessem o direito de serem enterrados. Assim, as cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultados em 6 de fevereiro de 1969. Os demais membros do bando foram enterrados uma semana depois.

Exposição

ABERTURA DA EXPOSIÇÃO COMO HABITAR O PRESENTE
Utilizando a vitrine da galeria, voltada para a rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema, a galeria irá expor obras em vídeo de 14 artistas de todo o Brasil, que ficarão ligadas 24 horas por dia.

A exposição será espelhada no site da galeria. A curadora Érika Nascimento selecionou trabalhos dos artistas Anna Bella Geiger, Aslan Cabral, Fernando Velázquez, Gabriela Noujaim, Jeane Terra, Kammal João, Luzia Ribeiro, Manata Laudares, Moisés Patrício, Nadam Guerra, PV Dias, Roberta Carvalho, Regina Pessoa e Vinícius Monte.

Em agosto, será inaugurada a sequência da exposição: “Ato 2 – Estamos aqui”, com vídeos de outros treze artistas, somando 27 ao todo.

Simone Cardinelli

A curadora Érica Nascimento e Simone Cardinelli 

Simone Cardinelli e a curadora Érica Nascimento

Equipe da Exposição COMO HABITAR O PRESENTE – Galeria Simone Cadinelli

Fotos:Cristina Granato

Lançamento

CAPA DO LIVRO

LANÇAMENTO
O designer Thiago Herrera lança seu projeto de ebooks sobre Design, apresentando o seu primeiro livro “História da Arte – ampliando o conhecimento”.

O livro de Thiago Herrera acompanha todo o desenvolvimento do ser humano, dividido em seus vários períodos da arte – da pré-história até 2020,  nos quais se verificam as variadas formas de produção artística, que contam a história das civilizações, ao longo dos séculos.

Este ebook não está disponível para venda – será uma recompensa para os apoiadores do projeto “2020 – Tendências para a próxima década” que estará, em breve, disponibilizado na plataforma do CATARSE. 

Thiago Herrera um coolhunter, sempre de olho no futuro resolve lançar nessa segunda-feira seu projeto, 20/07, comemorando 61 anos da chegada do homem à lua (20/07/1969). Em um vídeo real, revemos o astronauta Louis Armstrong dizendo sua célebre frase: ” pequeno passo para o homem, um salto para a humanidade” com a locução de “Sambarilove”, o ator David Pinheiro.

miss

História

Uma dos poucos registros de Dadá – Wikimedia Commons

DOS DIAS BRUTAIS DO CANGAÇO A COSTURA
Cangaceira após ser raptada e violada aos 13 anos, a Amazona do cangaço teve um fim diferente da vida frenética no bando de Lampião.

A maioria das cangaceiras não tinha papel de combatentes. Portavam facas e pistolinhas apenas para defesa, sem participarem ativamente de combates, saques e ocupações de vilarejos.

A presença feminina, segundo os pesquisadores, havia trazido um ar mais familiar aos bandos, elevando o apoio popular nas vilas por onde passavam e reduzindo os episódios de violência sexual.

Essa mudança aconteceu mais de um século após o início do banditismo do sertão, na década de 1830, com figuras como Jesuíno da Feira. Um século depois, porém, podia não parecer, mas o cangaço já estava em seus estertores.

Após o ataque, a bizarra exposição das cabeças /Wikimedia Commons

A partir da ascensão de Getúlio Vargas, o cangaço passou a ser fragilizado pela atuação mais ativa das volantes, as forças especiais criadas pela polícia especificamente para combater os cangaceiros. No fim da década de 1930, essas forças traziam uma letal novidade: metralhadoras. O armamento cangaceiro não era páreo para elas.

Numa madrugada de julho de 1938, o bando de Lampião foi atacado no sertão de Sergipe. Das 34 pessoas presentes, 11 foram degoladas ali mesmo, entre elas Lampião e Maria Bonita. Os sobreviventes fugiram ou se entregaram às forças do governo.

Justamente para fugir da perseguição policial, o grupo havia se dividido. Corisco estava longe, em Alagoas. Com a morte do chefe, ele assume o cargo, e sua primeira ação é de vingança. Havia recebido a informação de que quem tinha entregado Lampião fora certo José Ventura Domingos.

Com a convicção de estar vingando o bando, matou o dono da casa, a esposa e os filhos, degolou os cadáveres, colocou as cabeças dentro de um saco de estopa e enviou-as ao tenente João Bezerra, responsável pela destruição do grupo principal.  A informação estava errada. Corisco matou uma família inocente.

Com esse crime hediondo sobre seus ombros, a vida passa a ser de fuga constante. Enfraquecido, o grupo nem sequer tem munição suficiente. É então que Dadá começa a ganhar relevância na defesa e nos ataques.

“As moças carregavam pistolinhas, mas eu tinha um revólver 38 e cartucheira de duas camadas. As caixas de bala eu levava numa panelinha, porque eu gastava muito. E um punhalzinho. Mas para enfeite, porque eu não ia furar ninguém”, contou Dadá.

Em agosto de 1939, nova ascensão de Dadá na hierarquia do cangaço: Corisco é baleado e se torna incapaz de liderar. É por isso que muitos pesquisadores enquadram apenas Dadá como cangaceira, pois foi a única que, além de atirar em combate, comandou o grupo. “O papel padrão da mulher no cangaço não era de uma amazona, uma guerreira. Mas Dadá era uma mulher extremamente enérgica, dura”, afirma Frederico Pernambucano de Mello.

A liderança de Dadá durou pouco menos de um ano. Em meados de 1940 Corisco já havia cortado os cabelos longos e claros que o deram também o apelido de Diabo Loiro e vivia escondido com a mulher em uma fazenda em Barra do Mendes (BA), tentando uma vida normal.

Foram supreendidos por uma volante e Corisco é atingido por vários tiros de metralhadora no abdômen, morrendo após agonizar por dez horas. Dadá é baleada na perna, que precisa ser amputada depois. Mas vive para contar a história.

Em maio de 1968 a revista Realidade colocou frente a frente Dadá e o coronel Zé Rufino, que comandou o ataque ao casal. Ele chorou ao vê-la. Ela, altiva, perdoou, mas o desmentiu: não foi combate, foi emboscada.

Vida comum
Capturada, Dadá ficou presa por dois anos. Sua condição de inválida fez com que um advogado prático (rábula) pleiteasse com sucesso sua liberdade. Durante os anos de cangaço, havia tido sete filhos, mas apenas três sobreviveram e foram entregues a outras famílias.

Casada com o pintor de paredes Alcides Chagas, ganhou a vida como costureira e viveu na periferia de Salvador até sua morte, em 1994, aos 78 anos. “Depois da prisão ela deixa de ser Dadá e volta a ser Sérgia. Quando Alcides morre, ela se sente Dadá de novo”, afirma o pesquisador Tadeu Botelho, da UESB.

No documentário Feminino Cangaço, Botelho relata ainda o encontro, já no fim da década de 1980, entre Dadá e um soldado que ficou com sequelas por um tiro dado por ela.

O soldado a teria confrontado, dizendo que a culpa era dela por ele ter ficado naquela situação, ao que ela teria respondido: “Sorte sua, porque eu atirei foi para matar”. Como diz Botelho, Dadá “morreu cangaceira”.

Síndrome de Estocolmo?
Sejamos brutalmente honestos: Sérgia Ribeiro da Silva entrou para a História contra sua vontade. A Dadá de Corisco virou cangaceira após ser raptada e estuprada por ele aos 13 anos. E, por chocante que seja hoje, o que começou de forma trágica e violenta se transformou numa parceria que os historiadores reconhecem como cheia de cumplicidade e, sim, afeto.

É o que ela, que sobreviveu ao cangaço por cinco décadas, sempre disse: “Corisco me levava de um canto para outro e nessa continuação fui tomando amor por ele. Era um pai para mim, um marido e um professor”.

“Se avaliarmos todas as entrevistas cedidas por Dadá teremos falas sentidas e sofridas sobre sua entrada no cangaço, outras dela afirmando que Corisco foi o grande amor de sua vida”, lembra Caroline de Araújo Lima, que pesquisa o papel das mulheres no cangaço em seu doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Ela explica que uma vez dentro do movimento não havia volta. “Se ela foi forçada? Considerando a memória dessas mulheres podemos dizer que foram convencidas a tal ponto que defenderam aquele modo de vida como uma alternativa ao que estava posto no Brasil da época.”

Aos olhos contemporâneos, seria possível falar em síndrome de Estocolmo, quando uma pessoa submetida a um tempo prolongado de intimidação passa a ter simpatia e até mesmo sentimentos por seu opressor.

Mas os historiadores ouvidos refutam essa análise. Para Caroline, é fundamental manter o olhar naquele momento, naquela sociedade. “Ela tinha escolha? Considerando a sociedade sertaneja no início do século 20 e a cultura e os códigos de honra pautados na violência, até onde essas mulheres tinham opção? O amor aqui seria o quê? Possivelmente se submeter para sobreviver”, resume.

História

Retrato fotográfico de Antónia de Bragança – Wikimedia Commons

ANTÓNIA DE BRAGANÇA, A CURIOSA SAGA DA NETA DE DOM PEDRO I
Nascida Antónia Maria Fernanda Micaela Gabriela Rafaela de Assis Gonzaga Silvéria Júlia Augusta de Bragança e Bourbon Saxe-Coburgo-Gota, o nome gigante da jovem Antónia já era um sinal de que a portuguesa fazia parte da família real do país.

Era filha de D. Maria II com o segundo marido, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, sendo a sexta criança do casal. A influência da mãe, nacionalmente apelidada como “a educadora”, reverberou na educação da jovem Antónia, que até os nove anos de idade teve o amparo materno. A parceria acabou sendo interrompida em 1853, quando Maria faleceu durante o parto de um filho, aos 34 anos.

A ausência da mãe não fez a jovem se rebelar, mas serviu como impulso para continuar replicando a educação e bons modos ensinados. Em um registro durante a infância, Antónia é relatada como uma menina comportada, dona de uma roseira “muito bonita” e que chegou a extrair um dente sem gritar. Quando estava entrando na adolescência, já era cotada como uma das pessoas mais bem-intencionadas para o futuro trono real.

Retratos fotográficos de Antónia durante a infância, em Portugal / Crédito: Wikimedia Commons

Mudança de vida
No casamento do irmão Dom Pedro V, conheceu Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, um nobre suábio alemão, com quem passou a se reencontrar ao longo de dois anos. Mesmo favorecida pela família portuguesa, a jovem prefere largar todos os privilégios reais e casar-se em Sigmaringen, mas não sem antes se despedir do país-natal.

Em um casamento que teve cinco meses de preparação, o valor da cerimônia custava o equivalente a 30 anos da mesada que a infanta recebia e cerca de um ano e meio da dotação que as cunhadas — rainhas de Portugal — receberiam. Mesmo assim, o contrato nupcial foi aceito pela corte e uma grande festa, que iniciou no Palácio das Necessidades e reverberou em diversos eventos públicos por Lisboa, foi realizada em 12 de setembro de 1861.

Seis dias depois, deixou o país em direção à nova pátria, por onde ficaria durante boa parte de sua vida. De lá, recebeu a notícia da morte de seus irmãos e do pai, mas também não se abalou como consorte, dando à luz a três filhos, sendo Guilherme, em 1864, Fernando no ano seguinte e Carlos António, em 1868. Os filhos dos herdeiros tornaram Antónia avó de 13 netos, garantindo a sucessão da família quando o esposo falecesse.

Retrato fotográfico de Antónia já adulta / Crédito: Wikimedia Commons

Falecimento do marido
Leopoldo faleceria em 1905, o que fez Antónia cogitar o retorno para Portugal. Nunca fez questão de esconder a saudade da pátria onde nasceu, chegando a relatar através de uma carta: “Espero que os portugueses ainda pensem um pouco em mim de quem eu tenho tantas e tantas saudades”. Para manter as origens ligadas, a consorte mantinha uma fiel ligação com os irmãos, de maneira que pudesse ajudar sempre que possível em algum problema diplomático.

O único incômodo em terras alemãs foi justamente a frieza da população, que, de acordo com Antónia, “nunca tem a mesma caridade do que o coração dos meus bons e queridos portugueses”. Mesmo assim, não abandonou a pátria que a acolheu junto ao marido, acreditando que a mesma depositou confiança o suficiente para recebê-la.

Faleceu oito anos após o Leopoldo, em 27 de dezembro de 1913, com 68 anos de idade. Sua educação e beleza foram enaltecidas entre as honrarias depositadas durante o sepultamento da Igreja de Hedinger, sendo uma delas partindo de Maria de Edimburgo: “Antónia foi uma das grandes belezas do seu tempo, uma daquelas clássicas, fora de moda, que associamos à crinolina”.

MEU CERTIFICADO DA CASA IMPERIAL DO BRASIL

História

Cena do filme Pompeia (2014) – Divulgação/Imagem Filmes

O INFERNAL ÚLTIMO DIA EM POMPEIA
Era só mais um dia qualquer em Pompeia. Em 24 de agosto do ano 79, o comércio abriu as portas às 8 horas, como sempre, mas poucas pessoas estavam na rua. É provável que muita gente ainda estivesse dormindo, já que na noite anterior os moradores da cidade, como os de todo o Império Romano, tinham ido às lutas de gladiadores, peças de teatro e tomado muito, muito vinho. Tudo em celebração a Vulcano, deus do fogo.

Situada no pé do monte Vesúvio, às margens do que hoje conhecemos como baía de Nápoles, Pompeia era uma cidade próspera, com cerca de 20 mil moradores. Toda murada, tinha uma área urbana – onde se concentravam residências e casas comerciais como padarias, bares, lavanderias, bancos e banhos públicos – e uma rural, ocupada por grandes fazendas, onde se plantando quase tudo dava, principalmente trigo, azeitona e uva.

O centro da cidade tinha uma parte mais antiga, feita antes de a cidade virar colônia romana, e outra mais nova, com duas ruas principais, que cortavam a cidade nos sentidos norte-sul e leste-oeste.

Barcos chegavam o tempo todo trazendo comerciantes estrangeiros, sobretudo fenícios. Podia-se comprar de tudo no porto de Pompeia, desde macacos africanos e canela da China até escravos e escravas orientais, famosas por suas técnicas sexuais. Circulava muito dinheiro por ali.

A elite era formada por grandes fazendeiros, que tinham marinas particulares e seus próprios barcos, e pelos donos das lojas mais sofisticadas, casas de banho e indústrias de tecido. Os comerciantes eram o que hoje chamamos de classe média e moravam em casas construídas em cima de seus estabelecimentos. Na base da pirâmide social ficavam os trabalhadores rurais.

Ricos e pobres, todos se achavam abençoados por morar em Pompeia. Eles acreditavam que a fertilidade da terra era um presente dos deuses e não desconfiavam que o solo tinha tanta qualidade por causa de antigas erupções do Vesúvio. Aliás, eles nem sabiam o que era um vulcão. Tanto que, na época, sequer havia uma palavra em latim para designar o vulcanismo.

Para eles, o Vesúvio era apenas uma bela montanha: um calado e amistoso vizinho. Por isso, o mar agitado dos dias anteriores àquele 24 de agosto e o leve tremor de terra que fez o vinho balançar dentro dos cálices na festa de Vulcano não foram entendidos como sinais de perigo.

Escuridão total
A quinta-feira era apenas mais um dia de calor. Eram pouco mais de 10 horas quando um forte estrondo foi ouvido, seguido de um abalo. No horizonte, uma densa nuvem de 15 quilômetros de altura se ergueu sobre o Vesúvio. A 30 quilômetros dali, um dos mais brilhantes homens de seu tempo escutou o barulho. Em sua casa de campo em Miceno, estava Plínio, o Velho, uma das maiores autoridades em fenômenos naturais da época e autor dos 37 volumes de História Natural.

Os momentos finais em Pompeia / Crédito: Wikimedia Commons

De acordo com o pesquisador Andrew Wallace Hadrill, diretor da Escola Britânica em Roma e especialista em Pompeia, Plínio foi surpreendido pela explosão do Vesúvio. Hoje se sabe que a última erupção do Vesúvio antes daquela manhã tinha acontecido por volta de 1800 a.C.

Em poucos minutos, a ensolarada manhã virou noite. A fumaça do Vesúvio bloqueou completamente o sol. Impressionado com a noite no meio do dia e com o barulho, o povo saiu às ruas, curioso para ver o espetáculo. Acontece que aquela nuvem não era só fumaça.

Junto com as cinzas, o Vesúvio lançou na atmosfera toneladas de rochas a uma altura tão grande – algumas devem ter atingido 10 mil metros – que elas só começaram a cair minutos depois da explosão inicial. “As primeiras vítimas devem ter sido atingidas pela chuva de pedras e, em seguida, com o acúmulo de detritos sobre os telhados, pelos desabamentos”, diz Fabrizio Pesando, co-autor do livro Pompeii (“Pompeia”).

Muita gente ficou em casa, rezando. Outros, mais espertos, resolveram correr. Não adiantou. Em Miceno, Plínio, o Velho, assistia de camarote à densa fumaça que subia do Vesúvio, quando resolveu ver aquele fenômeno mais de perto. Ele mandou preparar um pequeno barco, convocou uma tripulação de nove homens e pouco antes das 5 da tarde se pôs a caminho de Pompeia.

A viagem foi uma péssima ideia. Ao se aproximarem da cidade, as altas temperaturas e um densa neblina fizeram com que o barco se desviasse de seu destino. O jeito foi ancorar na vizinha Estábia.

Em 24 de agosto de 79, Gaius Plinius Caecilius Secunduso, um rapaz de cerca de 20 anos, preferiu não navegar com o tio até o pé do Vesúvio. Plínio, o Velho, era um “cientista”. Na época, isso significava observar a natureza e depois fazer teorias sobre o fenômeno. Por isso, seu tio fez questão de ver tudo mais de perto. Plínio, o Jovem, ficou em casa, em Miceno. Sobreviveu e por isso pôde relatar todos os acontecimentos daquele dia. Suas longas cartas enviadas ao historiador Tácito mais tarde foram publicadas em livros.

Leia um pedaço: “Era o nono dia antes das calendas de setembro, pela sétima hora, quando minha mãe lhe mostrou (a seu tio) que se formava uma nuvem volumosa e de forma incomum. (Ele) Levantou-se e subiu a um lugar do qual podia ver melhor. A nuvem parecia-se muito com um pinheiro porque, depois de elevar-se em forma de um tronco, desabrochava no ar seus ramos. O Vesúvio brilhava com enormes labaredas em muitos pontos e grandes colunas de fogo saíam dele, cuja intensidade fazia mais ostensivas as trevas noturnas. Podia-se ouvir os soluços das mulheres, o lamento das crianças e os gritos dos homens. Muitos clamavam pela ajuda dos deuses, mas muitos outros imaginavam que não havia mais deuses e que o Universo estava imerso numa eterna escuridão”

“Em Pompeia a chuva de pedra já durava pelo menos 12 horas e praticamente toda a cidade estava soterrada sob cerca de 4 metros de rochas vulcânicas, quando o pior aconteceu”, diz Wallace-Hadrill. À escuridão das sombras das nuvens de cinza, juntou-se o escuridão da noite. Por isso, e porque não restassem muitas testemunhas no local, talvez ninguém tenha visto quando a parte mais letal da erupção se aproximou. “Viajando a uma velocidade superior a 120 quilômetros por hora, uma avalanche de cinzas e rochas superquentes, com temperaturas que ultrapassavam os 500 graus, desceu sobre a cidade.”

Avalanche
Situada na costa oeste do Vesúvio, a cidade de Herculano também viveu um inferno. Provavelmente beneficiada pela direção do vento, não sofreu tanto com a chuva de pedras. Em compensação, a avalanche foi muito mais violenta. Quem escapou e chegou à praia morreu do mesmo jeito, porque não sobreviveram à onda de calor e aos gases venenosos. Mais de 300 esqueletos foram encontrados num abrigo de barcos.

A morte para eles foi instantânea. O choque com a onda de calor fez seus órgãos vitais ficarem paralisados antes mesmo que eles se dessem conta do que estava acontecendo. A cidade, onde moravam 5 mil pessoas, ficou enterrada em 23 metros de pedras e cinzas.

Os rastros do Vesúvio / Crédito – Wikimedia Commons

Nuvem de fumaça, chuva de pedras quentes, gases tóxicos e avalanche, tudo num só dia. Chega, né? Não. O Vesúvio ainda não tinha parado. Antes das 7 da manhã do dia seguinte, uma nova nuvem atingiu Pompeia. Quem ainda estava lá acabou sufocado pelos gases. A nuvem seguiu em direção a Estábia. Os moradores tentaram atravessar a baía, mas não havia como.

Os gases vulcânicos fizeram centenas de vítimas. Entre elas Plínio, o Velho. Seu sobrinho, em Miceno, escreveu tudo o que pôde ver e apurar depois. Seus relatos eram tão bizarros que foram considerados lendas até o século 18. Hoje em dia, sabemos que existem erupções vulcânicas como Plínio contou.

Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram em Pompeia, Herculano, Estábia e redondezas. A recuperação de corpos indicaria um número entre 2 mil a 4 mil vítimas. De toda forma, Pompeia jamais se recuperou do estrago.

Múmias de gesso
Depois que Pompeia sumiu, os restos da cidade foram muito procurados por saqueadores. Dois séculos depois, as poucas pessoas que se lembravam da cidade a chamavam de Civitá. Em 1595, o local foi descoberto por acaso durante a construção de um aqueduto. As escavações só começaram em 1748, quando especialistas perceberam que aqueles objetos eram da tal Civitá.

Eles encontraram uma placa que dizia que o nome da cidade era Pompeia, e então ela ganhou o nome correto. O que mais impressiona até hoje são os “corpos” das vítimas. Muitos acreditam que aquelas figuras expressivas são os restos dos moradores petrificados.

Na verdade, os corpos não estão mais ali, mas já estiveram, e foi com base nos moldes que eles deixaram que os arqueólogos trabalharam. Foi assim: a avalanche de cinzas e rochas formou uma espécie de cobertura, que endureceu. Com o tempo, as vítimas foram decompostas, e as rochas que as cobriam ficaram com um espaço oco.

Os especialistas rechearam esse espaço com gesso, e assim conseguiram mostrar a posição de homens, mulheres, crianças e até animais mortos durante a erupção.

MEU CERTIFICADO DA CASA IMPERIAL DO BRASIL