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História

Luís Gama e Princesa Isabel – Wikimedia Commons

MITOS SOBRE A LEI ÁUREA, QUE COMPLETA 132 ANOS
O dia 13 de Maio é um marco na memória brasileira. Nesse dia, em 1888, era assinada a Lei Áurea, que dava fim à legalidade do cativeiro de trabalhadores. A abolição foi vista com bons olhos: a promulgação levou o Brasil ao delírio, com grandes festas e comemorações.

No entanto, essa comemoração esconde elementos importantes da arquitetura da exclusão que ela representa, se tratando de uma distorção dos fatos, que esconde uma série de mitos sobre a história do Brasil.

Pensando nisso, separamos 5 dessas narrativas.

Revolta / Crédito: Wikimedia Commons

1. A abolição foi obra da Princesa Isabel
A professora Angela Alonso, autora de Flores, Votos e Balas, resume: “Depois da abolição, aconteceram várias celebrações em torno da princesa Isabel. Parte dos abolicionistas, inclusive, associou a abolição à Coroa. Mas (a princesa) teve uma importância bem lateral. Há vários líderes negros que foram muito importantes”. Ou seja, se esquece dos principais interessados na abolição: os escravos.

“Os próprios escravos contribuíram de forma decisiva para acelerar o processo do fim da escravidão”, adiciona o historiador Ricardo Tadeu Caires Silva, da Universidade Estadual do Paraná, à BBC. “A abolição foi feita muito mais por uma pressão das ruas, das senzalas, do que por uma decisão política com base na bondade”.

Ao contrário do que diz o senso comum, o núcleo da luta pela abolição não era uma vontade humanista por parte da monarquia, que foi colaboracionista com um parlamento escravista por mais de 60 anos de Império, mas uma série de lutas e revoltas no interior das fazendas, que foram suprimidas.

A Lei Áurea é o culminar de todo um projeto de pressão social pelo fim da escravidão, que foi adiada com leis conservadoras como o Ventre Livre e a do Sexagenário.

Princesa Isabel e Leopoldina de Bragança / Crédito: Wikimedia Commons

2. Isabel aproveitou uma viagem de Dom Pedro II para assinar a Lei Áurea
Não ha dúvidas: a abolição da escravatura seria assinada por qualquer um que estivesse no poder. O adiamento da execução não ocorreu por uma discordância entre o Imperador e a Princesa, mas por conta de uma inviabilidade vista pelo governo, que tinha seu principal apoio na elite escravista. As pressões sociais, porém, obrigaram o governo a se modernizar economicamente e acabar com a questão servil.

As motivações que levaram à Lei Aurea não eram de motriz humanista ou social, mas essencialmente produtiva, e a herdeira do trono, com pressões causadas pelas revoltas escravas, enxergava, assim como o pai, a ação como premeditada.

Tudo indica que a ação de 1888 aconteceu para que Isabel conseguisse apoio popular para o desenvolvimento de um Terceiro Reinado, num momento em que seu pai estava debilitado.

Revolta escrava / Crédito: Divulgação

3. A luta contra a escravidão foi pacífica
Aqui, prevalece uma confusão de protagonismo. Na luta pela abolição por parte da monarquia, essa questão se tronou pauta a partir de 1850. No entanto, a emancipação dos cativos já era socialmente exigida desde o século 16: escravos lutavam por sua liberdade há séculos.

Famílias negras livres também integraram à luta emancipacionista muito antes dela se tornar uma pauta econômica do Império. Nomes importantes como Luís Gama, José do Patrocínio, André Rebouças e outros negros batalharam não apenas pelo fim do serviço senhorial, mas pelo auxílio aos libertos, que eram desamparados (e continuaram com as decisões políticas da Princesa Isabel e da República).

Uma das maiores especialistas em escravidão do Brasil, Maria Helena Machado, da USP, lembra em entrevista à BBC da pressão que a violência das revoltas contra os senhores teve na pressão pela abolição: “Eram crimes planejados, insurreições. Muitas vezes, em reação à violência física contra os escravos”.

Ou seja, muitas dessas ações tiveram um cunho revolucionário. “Aqueles que vencem a batalha é que fazem a narrativa. Nós historiadores temos que reconstituir o processo da batalha, para recuperar as vozes daqueles que não foram ouvidas”.

Escravidão no século 19 / Crédito: Domínio Público

4. Os governantes estavam do lado dos escravos
Ao contrario do que se costuma afirmar, o que resultou na Lei Áurea não era um afeto da monarquia pelos negros, mas o medo de uma revolta generalizada como aconteceu no Haiti, que quebraria a lógica do poder e dominação senhoriais.

É o que defende Luís Felipe de Alencastro, historiador e cientista político, que afirma que a abolição foi um movimento conservador de manutenção dos privilégios, para a elaboração, ainda excludente, de uma nova fase econômica controlada pela elite. “No final, a ideia de reforma agrária capotou”.

Muitos dos agentes centrais do movimento pela emancipação foram esquecidos e caíram no anonimato, num esforço conjunto de monarquia e república de acabar com a memória dos negros no Brasil.

Resumidos em alguns nomes mais conhecidos e ligados à ideologia monárquica, como José do Patrocínio (normalmente lido como caricatura), isso serve a um projeto de protagonismo da elite branca.

Escravidão / Crédito: Wikimedia Commons

5. Um marco contra o racismo
O período pós-abolição é central na compreensão das mazelas que ainda atingem a sociedade brasileira, marcada pela exclusão de negros em favelas e empregos de baixa remuneração e qualidade.

O projeto abolicionista nunca teve uma matriz humanista de auxílio aos emancipados, que foram deixados à própria sorte, sem propriedade e excluídos do mundo do trabalho, que esperava uma substituição com base na mão de obra europeia.

A inclusão do negro na sociedade não era pauta do governo. “Agora, a gente tem condições mais favoráveis pra voltar a esse 13 de maio com outros olhares e outras perguntas que permitam reconhecer os esforços negros na luta contra a escravidão. Porque, ainda que o projeto dessas pessoas não tenha sido o vitorioso, não se pode ignorar a luta dessas pessoas. Isso é um outro roubo de historicidade da experiência negra”, afirmou Ana Flávia Magalhães, da UnB, ao portal Terra.

“É importante a gente pensar nos abolicionistas lá do século 19 e o que a gente está enfrentando aqui hoje. Essa situação hoje é lastimável, de um racismo atemporal que se organiza no Brasil e que muita gente que está no topo do comando político tem ojeriza de sequer citar esse debate, quanto mais enfrentar o que essa situação de exclusão histórica produziu e impactou no projeto de vida da coletividade negra do país”, lembra a pesquisadora e ativista baiana Vilma Reis.

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História

Princesa Isabel – Biblioteca Nacional

AS ANGÚSTIAS DA PRINCESA ISABEL
Dona Isabel foi uma figura única da monarquia brasileira, e possivelmente a herdeira do trono numa eventual morte de Dom Pedro II ainda no poder — o que não aconteceu, diante da monarquia. Segundo a historiadora Regina Echeverria, em entrevista à BBC, a filha do imperador era uma “mulher bem humorada”, além de “determinada e apaixonada pelo marido, com personalidade forte […], mandona, leonina”. Porém, isso não impediu que sua vida fosse marcada por angústias e infelicidades, principalmente por acabar num exílio.

Baixinha e de olhos azuis, sua face era marcada pela ausência de sobrancelhas. Próxima à irmã, Leopoldina, teve seu casamento arranjado em meio a negociações mútuas que a envolveram. Dom Pedro mandara emissários à Europa no intuito de encontrar maridos para ambas ao mesmo tempo. Inicialmente, foi cogitado um matrimônio com o Príncipe de Joinville, sem sucesso.

Então, foi acordado que Isabel se casasse com Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota, e sua irmã se casaria com Dom Gastão, o conde D’Eu. Porém, ao conhecerem os pretendentes, perceberam que os afetos apontavam uma inversão: Isabel preferia o aristocrata francês. Porém, Gastão chegou a descrever ambas as moças como “feias”, achando Isabel menos bonita que Leopoldina. Acabaram casando em 1864, no Rio de Janeiro.

Família de Isabel / Crédito: Wikimedia Commons

Apesar de a simpatia do pai em levá-la a compromissos oficiais, a vida de Isabel foi marcada pelo ambiente doméstico. Ela tinha pouco espaço, mas mesmo assim desenvolveu um hábito fugaz pela leitura.

A visita à Europa do casal, em 1865, ocorreu puramente como civil: o Brasil, por insistir no apoio ao tráfico negreiro, cortara relações com a Inglaterra. Além disso, a família de Gastão havia sido expulsa da França. Logo depois do retorno ao Rio de Janeiro, Isabel passou por uma fase solitária: o Imperador convocara Gastão a participar da Guerra do Paraguai.

Com o fim da guerra, em 1870, eles voltaram a viajar à Europa, onde mais um episódio abalou sua vida íntima. Em Viena, visitando a irmã que deixara o Brasil, ela teve de lidar com a súbita morte de Leopoldina, que adoecera em 1871. O trágico acontecimento entristeceu Isabel, que se tornou a única filha viva de Dom Pedro II.

Triste e com um sentimento de solidão, ela e o marido voltaram ao Brasil. Três anos depois, ela ficaria grávida pela primeira vez, mas numa situação que levara a mais um trauma. Seu primeiro trabalho de parto na vida durou cerca de 50 horas, causando imensa dor, e resultando na morte do bebê.

A princesa Isabel do Brasil – Wikimedia Commons

A menina, que faleceu antes do nascimento, foi mais uma da linhagem dos Bragança que teve o duro destino antes de sair da infância. O parto fora muito duro e doloroso, sem anestesias, como relata Cleomenes Simões na obra Os partos da Princesa Isabel. O fato foi mais um abalo psicológico na aristocrata, que também vivia com um peso criado pela herança do poder, que era não só incomum na época — no Brasil, não havia direito ao trono a mulheres — como também marcado por contradições.

No ano seguinte, ela seria agraciada com o primeiro filho, Pedro de Alcântara. Depois, ainda teria mais dois: Luís e Antônio Gastão, mas o ocorrido da natimorta e o primogênito deficiente trouxeram grande amargura à princesa.

Outro momento de grande pesar na vida de Isabel se deu a partir do final dos anos 1880. Como herdeira, ela assumia o comando do governo nas diversas visagens (muitas delas por puro entretenimento) do pai. Numa dessas situações, ocorreu a famosa assinatura da Lei Áurea. Porém, com a crise da monarquia, Dom Pedro II sofreu um golpe em 1889, partindo para o exílio na Europa.

Passando a viver na França, Isabel sofreu muito com o distanciamento da terra natal. Assim como o pai, ela adorava o Brasil e, por isso, o exílio teve grande peso no seu psicológico, deprimindo a ex-princesa. Ela vivia relatando a vontade de retornar, mas sempre com um ponto de vista puramente civil, não política (ela deixou bem claro que não queria mais se envolver em movimentos).

Gravura da Família Imperial no exílio / Crédito: Wikimedia Commons

Em constante comunicação com os monarquistas do Brasil, Isabel se recusou a participar de qualquer iniciativa der retomada do regime na recente República Brasileira. Magoada e deprimida, ela queria saber como estava a situação dos brasileiros constantemente, mas muitas vezes barravam a verdade humilhante e entretecedora do cenário político de lá. Mais um abalo ocorreu na década de 1910, pois dois de seus filhos (Antônio e Luís) morreram na frente britânica da Primeira Guerra. Morreu em 1921, amargurada.

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História

A princesa Isabel do Brasil – Wikimedia Commons

A RARA CARTA DA PRINCESA ISABEL
No dia 13 de maio de 1888, a escravidão no Brasil foi abolida quando a princesa Isabel sancionou a Lei Áurea. O ato foi visto com bons olhos, afinal, a promulgação levou o Brasil ao delírio, com grandes festas e comemorações.

No entanto, muitos desconhecem os bastidores desse momento, que fora revelado com uma carta escrita pela própria princesa Isabel, em 11 de agosto de 1889, endereçada a Visconde de Santa Victoria, o Visconde de Mauá.

Porém, antes de mais nada, apesar da lei Áurea ser considerada o símbolo da abolição, vale ressaltar que o fim da escravatura no Brasil aconteceu de maneira gradual a partir da segunda metade do século 19.

Esse processo começou em 4 de setembro de 1850, quando foi promulgada a Lei Euzebio de Queiroz, que, além de vetar a entrada de escravos africanos no Brasil, também criminalizava quem a infringisse.

Logo depois veio a Lei do Ventre Livre, que declarava, a partir daquela data, livres todos os filhos de mulher escrava nascidos no Brasil. E por último, em 28 de setembro de 1885, a Lei dos Sexagenários, que garantiu a liberdade dos escravos com pelo menos 60 anos de idade.

Assim, nesse contexto gradual, resultante nas pressões internas e externas, além da insurreição dos escravos, especialmente aqueles dos chamados “quilombolas de resistência” (ou quilomborompimento), que a Lei Áurea foi instaurada.

Apesar disso, o documento escrito pela princesa Isabel mostra que ela apenas não queria dar fim ao regime escravista, como também indenizar os escravos libertos e assentá-los, para que assim pudessem ser capazes de produzir seu próprio sustento.

Em um dos trechos, disponíveis em um artigo publicado pela Fundação Palmares, Isabel escreve: “Fui informada por papai [dom Pedro II] que me colocou a par da intenção e do envio dos fundos de seu Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do ano passado, e o sigilo que o Senhor pediu ao presidente do gabinete para não provocar maior reação violenta dos escravocratas”.

Em outra parte, ela deixa mais clara sua intenção: “Com os fundos doados pelo Senhor teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos, realizando uma grande e verdadeira reforma agrária a quem é de direito”.

Assim, Isabel aparenta ter plena consciência dos riscos que a monarquia corria casso esse plano chegasse nos ouvidos dos escravocratas e dos militares. “Deus nos proteja dos escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio, pois seria o fim do atual governo e mesmo do Império e da Casa de Bragança no Brasil”.

Deste modo, pelos motivos já citados, não podemos conferir a Isabel o título de única responsável pelo fim da escravidão, assim com também não é plausível lhe abster de fazer parte disso. Além disso, o documento também revela que a princesa mantinha boas relações com outros abolicionistas, como Joaquim Nabuco e André Rebouças, que por sua vez, possuíam relações amistosas com o Quilombo do Leblon, localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro.

“Nosso amigo Nabuco, além dos Srs. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderem dar auxílio a partir do dia 20 de novembro quando as Câmaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o nosso Brasil!”.

Isabel também se mostra bastante otimista com que o fim da escravidão pode ocasionar no Brasil. “Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar e realizar mais um pouco”.

O documento também mostra a monarca com um pensamento diferente. “Pois as mudanças que tenho em mente, como o senhor já sabe, vão além da liberação dos cativos e que seus sustentos sejam realizados de forma honrosa”.

“Quero agora me dedicar a libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro doméstico, e isto será possível através do Sufrágio Feminino! Se a mulher pode reinar também pode votar!”, conclui antes de se despedir. “Agradeço vossa ajuda de todo meu coração e que Deus o abençoe!”.

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História

Dona Leopoldina e Dom Pedro I – Wikimedia Commons

A DESESPERADORA CARTA DE LEOPOLDINA A DOM PEDRO I
Dona Leopoldina tinha uma vasta inteligência e era uma mulher estrategista. Embora ela tenha ficado nos bastidores do desligamento de Portugal com o Brasil, o seu papel foi, na verdade, de protagonista. Sem ela, Dom Pedro I talvez tivesse pensado duas vezes antes de gritar “Independência ou morte!”.

Como princesa real, ela já calculava à frente. Isso porque a atuação política de vossa alteza antecede até mesmo sua fase de imperatriz consorte. O seu maior talento talvez seja a influência — em especial sob o seu marido. Por isso, o Dia do Fico (9 de janeiro de 1822), foi tanto uma vitória dos brasileiros quanto da princesa.

Substituindo o traidor
Pedro era um infiel que traía Leopoldina com inúmeras amantes, sendo a mais conhecida delas Domitila de Castro, a famosa Marquesa de Santos. Apesar da relação ter sido um fiasco, provando que possuía intelecto e objetivo, a princesa assumiu o papel de regente no lugar do marido adúltero, que assim permitiu.

Como Príncipe Regente, ele havia viajado para São Paulo, em agosto de 1822, para esfriar os ânimos antes da independência. O calor vinha dos temores de que uma guerra civil podia separar a Província de São Paulo do resto do Brasil.

Dona Leopoldina / Crédito: Wikimedia Commons

Enquanto isso, por causa do seu estado de gravidez, Leopoldina não pôde acompanhar o esposo até o território dos paulistas e permaneceu no Rio de Janeiro. Foi aí que no dia 13 daquele mês de agosto, Dom Pedro nomeou a mulher como chefe do Conselho de Estado e Princesa Regente Interina do Brasil.

Neste ínterim, a agitação em Portugal era imensa e os brasileiros estavam cientes que os portugueses podiam chamar D. Pedro I de volta, rebaixando novamente o Brasil ao status de colônia. Dona Leopoldina não podia esperar mais pelo marido. Tomou uma rápida decisão.

Com os conselhos de José Bonifácio de Andrada e Silva, no dia 2 de setembro de 1822, ainda como chefe interina, Leopoldina presidiu uma reunião do Conselho de Ministros e assinou o decreto da Independência, declarando o Brasil separado de Portugal. No entanto, ainda era necessário que o imperador sancionasse a resolução da esposa.

Leopoldina como Princesa Real-Regente do Reino do Brasil, presidindo a reunião do Conselho de Ministros, em 2 de setembro de 1822 / Crédito: Wikimedia Commons

A carta atormentada
Após assinar o decreto, no mesmo dia, a regente enviou uma carta ao marido, pedindo que ele proclamasse a Independência do Brasil. Ela queria que o príncipe visse seu posicionamento antes que o despacho oficial chegasse até São Paulo. Então, Leopoldina deu um jeito de atrasar o correio e escreveu a correspondência.

O documento original, porém, não mais existe. No entanto, seu texto foi preservado em um folheto raro de 1826, onde foi publicado pela primeira vez. O papel chegou até D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, mesmo dia em que ele proclamou o Brasil livre de Portugal.

Na carta, Leopoldina escreve:  “Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até oficiais das tropas são revolucionários. As Cortes Portuguesas ordenam vossa partida imediata, ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho de Estado aconselha-vos para ficar”.

Além disso, a regente interina alerta o esposo, ao dizer que, se fossem à Lisboa, o destino também não seria o melhor de todos. O rei e a rainha de Portugal estavam submetidos às mãos das cortes liberais. E Leopoldina argumentava também que o Brasil queria D. Pedro I como monarca. Portanto, ele deveria anunciar a emancipação de uma vez por todas.

A independência, conforme foi descrito pela princesa, era já inevitável. “Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele fará a sua separação”, registrou. Nesse fogaréu, D. Pedro I cedeu. Às 16h30 do fatídico dia 7 de setembro de 1822 — mesmo que com dor de barriga — nas margens do Rio Ipiranga, ele declarou a independência do Brasil. Vitória dos brasileiros e, em parte, de Leopoldina.

Retrato de Dona Leopoldina /Crédito: Wikimedia Commons

Veja abaixo o texto da carta de Dona Leopoldina ao marido na íntegra:

“Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até oficiais das tropas são revolucionários. As Cortes Portuguesas ordenam vossa partida imediata, ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho de Estado aconselha-vos para ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa. Sabemos bem o que tem sofrido nossos pais. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das Cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito. Chamberlain vos contará tudo o que sucede em Lisboa. O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele fará a sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece. Ainda é tempo de ouvirdes o conselho de um sábio que conheceu todas as cortes da Europa, que, além de vosso ministro fiel, é o maior de vossos amigos. Ouvi o conselho de vosso ministro, se não quiserdes ouvir o de vossa amiga. Pedro, o momento é o mais importante de vossa vida. Já dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois. Tereis o apoio do Brasil inteiro e, contra a vontade do povo brasileiro, os soldados portugueses que aqui estão nada podem fazer. Leopoldina”.

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História

Luís de Orléans e Bragança, o príncipe imperial do Brasil – Wikimedia Commons

A SAGA DO FILHO DA PRINCESA ISABEL LUÍS DE ORLÉANS
Luís de Orléans e Bragança, o príncipe do Brasil até 1889, tornou-se o sucessor ao trono imperial, quando o seu irmão, Pedro de Alcântara, renunciou aos direitos da coroa, em 1908. Conhecido como Príncipe Perfeito, Luís foi o segundo filho da princesa Isabel com o príncipe consorte Gastão de Orléans, sendo assim, neto de Dom Pedro II, o último imperador do Brasil.

Primeiros anos de vida e exílio
Batizado como Luís Maria Filipe Pedro de Alcântara Gastão Miguel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança, o herdeiro nasceu em 26 de janeiro de 1878, em Petrópolis. Desde criança, demonstrou ter uma personalidade forte e determinada, sendo muito comunicativo e perspicaz — o oposto do irmão Pedro de Alcântara.

Admirador da arte e da Literatura, Luís dedicou-se a escrita durante boa parte de sua vida, o que o levou a publicar, mais tarde, as obras Dans les Alpes, Tour d´Afrique, Onde quatro impérios se encontram e Sob o Cruzeiro do Sul, em que relatou suas experiências de viagens.

Luís de Orléans e Bragança, em 1893 / Crédito: Wikimedia Commons

Durante a forte campanha abolicionista, Luís e seus irmãos publicaram artigos em um jornal do palácio de Petrópolis. Mas por conta do golpe que instaurou a República, o príncipe e seus irmãos foram enviados para o exílio. Mais tarde, diante da queda da monarquia, a família imperial passou por dificuldades financeiras, o que os levou a receberem ajuda de amigos e do pai de Gaston de Orléans.

Engajamento político e sucessão ao trono
Tanto dona Isabel quanto o marido, enxergavam em Luís um grande potencial para restaurar e assumir a monarquia no Brasil. Em 1907, após retornar de suas viagens, o rapaz planejou desafiar o banimento da família imperial, viajando para a cidade do Rio de Janeiro. A repentina chegada do herdeiro causou indignação na República Velha, e foi amplamente noticiada pelos jornais.

Ao chegar no solo brasileiro, Luís foi impedido de desembarcar, sendo exilado novamente, como contou no livro Sob o Cruzeiro do Sul, publicado originalmente em 1913. “Impedido de desembarcar pelo governo, saúdo da baía da Guanabara, na véspera do 13 de Maio, a redentora dos cativos”, escreveu Luís à sua mãe.

Em 1908, Pedro foi obrigado a renunciar o trono, após se casar com a nobre Elizabeth de Dobrzenicz, pois sua mãe não aprovava a relação. Luís, por sua vez, tornou-se o herdeiro na linha de sucessão do império extinto, e posteriormente se casou com sua prima, Maria Pia de Bourbon, em 4 de novembro do mesmo ano.

O casal teve, ainda, três filhos: dom Pedro Henrique (1909-1981), que se tornou o sucessor direto da princesa Isabel e Chefe da Casa Imperial; Luís Gastão (1911-1931) e Pia Maria (1913-2000).

Luís ao lado de sua esposa, Maria Pia / Crédito: Wikimedia Commons

Com a renúncia do irmão mais velho, Luís tentou colocar em prática a restauração do Império, até que em 1909 apresentou um manifesto político com o intuito de retomar a campanha da monarquia.

“Quanto me custa ficar aqui, de braços cruzados, quando penso que um punhado de homens decididos bastaria para arrancar a Pátria das garras dos aventureiros que a exploram. Ainda não sei qual será a sua atitude na questão das candidaturas. Quanto a mim, julgo ambos os candidatos ‘indesejados’; mas a ter de optar, optaria pelo Rui [Barbosa], cujos partidários representam o elemento mais são e de maior prestígio no país.

Parece-me mesmo que poderíamos aproveitar o momento para um acordo com os próceres desse grupo, a fim de conseguirmos um esforço comum pela restauração, logo após as eleições presidenciais. Que lhe parece?”, disse Luís em uma das cartas enviadas à Martim Francisco de Andrada III.

O príncipe atuou na política desde 1907 até 1920, sendo um grande defensor do federalismo, do militarismo e do direito dos operários. Considerado a frente do seu tempo, era a favor das condições dignas de trabalhador.

Por conta de seus ideais progressistas, Luís foi acusado, ainda, de ser radical e socialista, quando na verdade lutava para combater os avanços dos discursos comunistas e anarquitas entre a classe operária.

Funeral de Luís de Orléans e Bragança, em 1920 / Crédito: Wikimedia Commons

Primeira Guerra Mundial e os últimos anos de vida
Durante a Primeira Guerra Mundial, Luís e seu irmão Pedro se alistaram como oficiais do exército inglês, após a França ser invadida pela Alemanha. Em 1915, quando combatia nas trincheiras de Flandres, Luís contraiu reumatismo ósseo, impossibilitando-o de andar. Após a fatídica doença, o herdeiro foi afastado das trincheiras, mas devido a sua bravura na guerra, foi condecorado com inúmeras medalhas de honra.

Em 1918, o governo publicou o Arquivo Nobiliárquico Brasileiro, em que retratou a nobiliarquia brasileira. A obra foi dedicada a alteza imperial, o Senhor Dom Luíz de Orléans Bragança. No entanto, conforme os anos se passaram, a grave doença de Luís se alastrou de forma alarmante, até que, em 26 março de 1920 o príncipe veio a óbito.

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História

Dom Pedro II em pintura oficial – Wikimedia Commons

HÁ 179 ANOS, DOM PEDRO II ERA COROADO IMPERADOR DO BRASIL
O menino tinha apenas 5 anos quando foi arrancado da cama e levado da Quinta da Boa Vista para o Paço Imperial do Rio de Janeiro. Assustado, chorava sem parar, encolhido no banco de trás da carruagem. No caminho, o veículo foi parado por populares, que tiraram os cavalos e se encarregaram de levar eles mesmos a carga preciosa ao seu destino.

Havia cheiro de pólvora, vindo de tiros de artilharia. Uma multidão tomava as ruas. O pequeno Pedro, tornado infante do Brasil naquela noite de 7 de abril de 1831, ocuparia o lugar do pai, que acabara de abdicar. Sua mãe, Maria Leopoldina, havia morrido quando ele era um bebê. Enquanto o garoto era levado ao paço, Pedro I já estava a bordo da fragata inglesa Warspite. Pai e filho nunca mais se viram outra vez.

Por quase meio século, o chamado órfão da nação ocuparia o papel de fiador do império. O golpe que lhe garantiu a maioridade aos 15 anos transformou Pedro de Alcântara no condutor do Segundo Reinado. Enquanto os vizinhos latino-americanos se fragmentavam em pequenas repúblicas, comandadas por caudilhos, o Brasil, grande e unido, era visto pela Europa como uma ilha de civilização em meio à barbárie.

Pedro foi criado por tutores (o primeiro deles foi o Patriarca da Independência, José Bonifácio) e por funcionários do palácio. Sua formação foi uma só: seus professores trataram de lhe ensinar como ser magnânimo, justo, educado, comprometido e fiel ao Brasil. Pedro cumpriu à risca o que lhe foi ensinado. Quando morreu no exílio, aos 66 anos, em 1891, seu obituário no jornal The New York Times afirmou que ele “foi o mais ilustrado monarca do século”.

Dom Pedro II foi um servidor de seu país desde a abdicação de seu pai. Seus passos eram vigiados, suas atividades se transformavam em relatórios analisados no Parlamento. O Marquês de Itanhaém, o tutor que sucedeu Bonifácio, preparou um regulamento para o garoto que incluía acordar diariamente às 7 da manhã. A partir daí, cada hora tinha uma atividade específica e até as conversas seguiam um tema definido. A rubrica de diversão durava duas horas diárias. O dia acabava às 21h30 e o sono era precedido de mais leituras.

O objetivo do tutor, como relata José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, era criar um paladino. “Itanhaém queria formar um monarca humano, sábio, justo, honesto, constitucional, pacifista, tolerante”, afirma Carvalho na biografia D. Pedro II. “Isto é, um governante perfeito, dedicado integralmente a suas obrigações, acima das paixões políticas e dos interesses privados”. Ao mesmo tempo, é necessário lembrar, seu governo, assim como o do pai, foi marcado pela restauração estrutural do escravismo.

Coroação de Dom Pedro II / Crédito: Wikimedia Commons

A vida pessoal de Pedro, como se vê, não pertencia a Pedro. Visitas de parlamentares para checar in loco a educação do príncipe eram comuns. O Parlamento recebia relatórios sobre os avanços do futuro monarca. O de 1837, por exemplo, dava conta que Pedro falava e escrevia em francês e era capaz de traduzir do inglês.

Mas, como registra José Murilo de Carvalho em seu livro, o deputado Rafael de Carvalho criticava a falta de exercícios e divertimento. “Segundo os observadores, era um menino tímido, ensimesmado e, seguramente, muito carente de afeto”, definiu o historiador.

Imperador na puberdade, dom Pedro logo encontrou uma palavra que o acompanharia ao longo de toda a vida para descrever as cerimônias, rapapés e atividades inerentes ao mandato: maçada. Fez uso dela ao comemorar seu primeiro aniversário na condição de imperador, quando anotou em seu diário, depois de um dia que começou às 7 da manhã e incluiu missa, Te-Deum, beija-mão e teatro: “Agora, façam-me o favor de me deixarem dormir. Estou muito cansado, não é pequena a maçada”.

Diversos diplomatas, ao longo de seu reinado, observaram o tédio que brotava do imperador brasileiro. Sobravam palavras como triste, infeliz e enfadado para descrevê-lo. Para Carvalho, porém, tratava-se de uma máscara. “O laconismo e o aparente enfado eram, sem dúvida, recursos de que o rapaz fazia uso para acobertar a enorme insegurança.”

Talvez o golpe mais duro na vida do jovem imperador tenha sido seu casamento – e a vida em família. Para começo de conversa, encontrar uma noiva foi tarefa complicada. O imperador governava um país distante e atrasado. Não havia no Rio de Janeiro nada que nem de perto lembrasse uma corte (diga-se, os títulos nobiliários do império brasileiro não eram herdados). A cidade era impraticável no verão – e ainda havia a fama de garanhão do pai de Pedro II.

Para piorar, o imperador era um sujeito alto e de lindos olhos azuis, mas sua voz… “Bastava que abrisse a boca para que essa boa imagem inicial rapidamente se esvanecesse: a voz era aflautada, fina e aguda, como em falsete, mais própria de um adolescente em início da puberdade do que de um adulto”, registra o jornalista Laurentino Gomes, no livro 1889.

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Retrato de Francisca de Bragança feita por Franz Xaver Winterhalter – Wikimedia Commons

A IRMÃ DE DOM PEDRO II QUE FOI ABANDONADA NO BRASIL
Nascida no Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, a herdeira brasileira era afetuosa, extrovertida e dona de opiniões fortes.

1. Infância rígida, mas luxuosa

Quarta filha de Dom Pedro I com a Imperatriz Leopoldina, Francisca de Bragança era uma menina cercada por títulos da nobreza — tanto por parte de mãe, quanto por parte de pai. Assim, ela cresceu entre vestidos de seda, acessórios extravagantes e riquezas que boa parte do Brasil Império sequer sonhava em possuir.

Apesar de regada a luxo, a juventude da princesa não deixou de ser tão rígida quanto a dos seus irmãos, D. Pedro de Alcântara, Paula Mariana e Januária. No palácio, os jovens eram levados à igreja com uma frequência inflexível e tinham diversas aulas de disciplinas como aritmética, línguas, música e etiqueta.

Januária, Dom Pedro II e Francisca, respectivamente / Crédito: Wikimedia Commons

Em dezembro de 1826, quando Francisca tinha apenas três anos, a Imperatriz Leopoldina faleceu, deixando seus filhos e Dom Pedro I se

A pequena herdeira, então, passou a ser criada por sua madrasta. Aos 7 anos de idade, no entanto, assistiu de camarote quando seu pai, sua irmã mais velha e Amélia mudaram-se para Portugal. Pequena demais para sequer entender a viagem, Francisca, mais do que nunca, sentiu-se sozinha, apesar da companhia dos irmãos.

3. Por trás das cortinas

Retrato de Francisca de Bragança quando jovem / Crédito: Wikimedia Commons

Pouco lembrada na história do Brasil Império, Francisca de Bragança cresceu à sombra de irmãos regentes. Em 1831, por exemplo, recebeu a notícia de que sua irmã, D. Maria da Glória, teria recuperado a coroa portuguesa de seu tio usurpador, Dom Miguel I.

Naquele mesmo ano, quando Dom Pedro I mudou-se para Portugal, a fim de reaver o trono da filha, Francisca acompanhou cada detalhe da proclamação de seu irmão como Imperador do Brasil. Ela, inclusive, apareceu ao lado de Dom Pedro II quando ele ascendeu à varanda do palácio imperial para reverenciar seu povo.

4. Irmão cupido